Dizer que a leitura é importante na alfabetização e na ampliação de horizontes de qualquer pessoa é indubitavelmente um pleonasmo, pois tal entendimento é familiar até aos iletrados. Ela alicerça a vivência, bem como desperta o conhecimento do mundo ao redor do leitor. Fato! Se para as crianças o impacto de uma leitura pode auxiliar no extenso crescimento de sua formação, num adulto a compreensão da escrita fornece autonomia do pensar e do decidir. Independentemente de qualquer ponto de vista, a alfabetização fornece autossuficiência para o aprendiz.

E é a partir desse contraponto e provocação que eu compus os personagens do livro infantojuvenil “Teté do Abaeté”, personificados em Teté (adulto) e seu filho João (criança). No meu artigo “Caça às bruxas em tempos de Saltimbanco” eu já tinha abordado a questão do valor dos contos de fadas e a importância de se contar essas histórias para uma criança. Aqui dou um passo adiante para motivar algumas reflexões.

Ana Dantas 
A autossuficiência de um aprendiz
Semeando possibilidades para um futuro

A primeira delas é ratificar que quando uma criança faz algumas marcas ou rabiscos num papel, isso claramente acarreta um sentido enorme para ela, uma vez que faz parte das suas experiências e cultura. Já as primeiras experiências de “leitura” que a criança vivencia, certamente não atingem, nem mesmo se limitam, às convenções do sistema alfabético. Neste caso em específico, sim, a criança não “lê” o que está escrito, mas o que acredita estar escrito.

Com o andar da carruagem, a leitura correta permite o foco no crescimento intelectual e social da criança, engrandecendo o seu vocabulário, a fim de que essa prática ganhe um lugar importante na vida dela. Se for contínuo e crescente, evidentemente, torna-se um hábito salutar — se praticável no dia a dia e não só na sala de aula. A leitura nesse sentido vai dando espaço para uma prática recreativa e não unicamente informativa e obrigatória.

Ana Dantas
A autossuficiência de um aprendiz
Um ganho infinito para qualquer sociedade

Quem tem o hábito de ler, tem mais chances de conhecer diversos assuntos, enriquecendo-se enquanto indivíduo. Como consequência, gera-se um vocabulário extenso e rico, motiva uma escrita mais quantitativa e qualitativa, levando o leitor a possibilidades diversas de encontro com o imaginário. Um encontro entre algo já conhecido com o desconhecido. Entre o presente e o passado.

Atualmente podemos observar que nos mais diversos ambientes temos algo que retrata a leitura, seja na rua; em placas de trânsito, seja no supermercado; com as descrições dos produtos, e assim segue sua presença na vida dos indivíduos. O gosto por tais práticas desde cedo pressupõe a transformação de escolhas futuras no referido leitor.

O grau pelo que o leitor é influenciado através de um texto é que lhe impõe limites ou não. Se para uma criança que se deleita pelas histórias contadas isso significa ter mais chance de se tornar um leitor ativo no futuro, para um adulto, a leitura aguça a razão, a criatividade, bem como desperta o espírito para reflexão e compreensão de si próprio, de sua cultura e da diversidade como um todo.

Ana Dantas
A autossuficiência de um aprendiz
Lendo e transformando o mundo

Os adultos têm grandes desafios no processo de alfabetização e, consequentemente, de leitura. Embora alguns ainda relutem em admitir esta habilidade, no pensamento de Paulo Freire “tantos educandos quanto os professores são transformados em pesquisadores críticos. Os educandos não são uma lata de lixo vazia a ser preenchida pelo professor”. (curso de formação de alfabetizadores BB educar, 2005 p. 25). É bom salientar que os adultos não são crianças grandes e não devem ser tratados como tal em sala de aula.

Os adultos têm experiências de vida, recheadas de saberes e é importante que isso seja levado em conta. Usar o material das crianças neste tipo de alfabetização é ineficaz e pode não despertar o interesse desses alunos. Um bom ponto de partida é eliminarmos de vez velhas crenças sociais que não mais nos serve de nada, tais como: “cachorro velho não aprende novos truques,” “para que aprender a ler se já está velho?”, “deixem os velhos morrerem em paz!”, “aprender para quer?”. Tais comentários demonstram falta de vitalidade. No meu ponto de vista, enquanto estivermos respirando nossa capacidade de aprender coisas novas, possibilita o sonho e a vida.

Ana Dantas
A autossuficiência de um aprendiz
Teoria do conhecimento na prática

Mesmo que a possibilidade de errar ao ler e escrever amedronte, o cenário ideal é, em verdade, encarar como uma etapa natural da aprendizagem. Afinal, ninguém nasce alfabetizado ou exímio leitor. Contudo, atribuir valor à atividade de alfabetização e leitura é estimular opiniões e questionamentos sobre qualquer tipo de conteúdo.

Não percamos as esperanças, pois, dados mostram que a leitura no Brasil aumentou de 50% para 56% nos últimos anos. Uma pesquisa da Amazon conduzida pela Kelton Global Research mostrou que a leitura também aumenta a felicidade e ajuda a melhorar nossos relacionamentos. Isso significa que 71% dos leitores que leem toda semana relataram que se sentem felizes, enquanto apenas 55% que não leem fizeram a mesma afirmação.

Então, no Dia internacional da alfabetização, celebremos os avanços da educação e alfabetização, pois quando elas são pontuais e assertivas, tornam-se eficazes. Atualmente, com as inúmeras possibilidades disponíveis, realmente, só permanece analfabeto quem não quer sair de sua zona de conforto. Todavia, dado isso, a escolha de sair da comodidade habitual continua sendo de cada um.


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Feli
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Feli

Adorei o texto! Parabéns

Sabiá
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Sabiá

Que importante leitura! Parabéns por essa reflexão tão fluida e generosa.