Depois desse período evolutivo, definitivamente, a distopia estará em decadência. Os players e emissoras de TV terão que rever urgentemente seus conteúdos, reprisado ou não, para atender aos poucos telespectadores que continuarão a lhes dar audiência. E essa será a maior experiência que eles terão para desenvolver o que há de melhor na essência do audiovisual brasileiro.

Os grandes equívocos são a síndrome do “Maria vai com as outras” e a falta de clareza dos compradores para o mercado criativo e produtivo do audiovisual, mesmo que estejam repletos de dados coletados ou pesquisados por sua audiência. No primeiro cenário, eles terão que reconsiderar urgentemente sua grade de programação. Não é porque uma série de TV deu certo de que as subsequentes têm que ser copiadas e coladas.

Nem sempre a audiência quer se alimentar de reprises de temas. Ainda mais agora quando “libertos” da quarentena a última coisa que vão querer fazer é ficar trancafiados em casa. O público, cada vez mais exigente, quer mais do que isso: quer diversidade e qualidade. Aliás, falando-se em público, é bom que se diga que os telespectadores são mais do que uma única faixa etária. Por vezes, a considerada minoria podem ser os reais consumidores desta mídia.

Ana Dantas
Distopia Démodé

Programas com formatos pré-definidos em que não surpreende mais o espectador não prenderão mais a audiência, pois fórmulas previsíveis darão espaço para o prodigioso, assim como é aquele jargão conhecido pelo mundo holístico: “Universo surpreenda-me!” A falta de briefing e clareza dos canais na relação da criação são outros obstáculos que terão que ser transpostos e revistos, pois o aparelho de TV, em pouco tempo, poderá ter a mesma função que uma lavadora de roupas ou um fogão.

Muitos promissores talentos da escrita estão migrando para outros negócios — enquanto as poucas referências se veem assoberbadas — pois estão cansados de criar, criar e criar sem nada receber e nunca terem uma oportunidade efetiva no mercado fechado e vil. Trabalhei por mais de 20 anos com publicidade, propaganda, promoção e eventos, e, a experiência me mostra que todas as vezes que o cliente não participava para a agência um briefing impecável, inclusive com as estratégias a serem alcançadas no futuro, o equívoco era inevitável.

Assim será o novo mercado do audiovisual: enquanto não se conscientizarem que os roteiristas — parte criativa do processo — para desenvolver bons projetos tem que ter informações corretas e saudáveis do canal, mais os analistas/leitores de conteúdo terão trabalho desnecessários e continuarão descartando produtos que poderiam receber algum ajuste ou orientação, retendo talentos ainda desconhecidos para o mercado audiovisual. Se não querem dividir informações por algum tipo de receio, então, que contratem seus próprios roteiristas e terceirizem a produção.

É bom que se ressalte que, dentro de cada ecossistema, se não tiver um começo, não existe o meio e, pior ainda, o fim. Assim é com absolutamente tudo na vida. Se não há quem crie, não se tem o que produzir e, muito menos distribuir ou vender. Qualquer produto em um simples supermercado existe porque alguém criou, pensou e o desenvolveu, dando início assim a toda a cadeia produtiva. 

Ana Dantas
Distopia Démodé

É revolucionário? Respondo: após esse período de grande transformação no mundo, de qualquer jeito, todo o mercado audiovisual terá que se rever e se reinventar, pois este ecossistema de embuste caminha para a falência. Logo os canais não terão mais o que reprisar e vão ter que sair bancando novas produções. Vão parar de contratar distopia para contratar vida real. Vai ter demanda para roteiristas, mas como o mercado nunca investiu, de fato, nesse tipo de profissional, vai roer osso sem carne para procurar agulha no palheiro.

Definitivamente, distopia está démodé. Depois de tanta quarentena, a audiência ficará cansada de velozes, furiosos, violentos e tantos outros conteúdos correlatos. Aliás, diga-se, se antes desse período de metamorfose humana, os clientes já estavam cancelando suas assinaturas de TV, agora que desligarão de vez seus aparelhos se não houver reais atrativos para ligá-lo. É só olhar em volta para perceber que já estão migrando para outras plataformas de entretenimento mais interessantes, independentes e diversas. Não é à toa que as lives das redes sociais tiveram tantas audiências — e algumas se manterão com seu público cativado nesse período —, pois o sistema encontra-se com padrões fatigados.

Ana Dantas
Distopia Démodé

O Brasil quer se ver já não é de hoje. E quando eu digo isso não estou falando de, por exemplo, histórias de famosos, mas de narrativas edificantes (com drama, romance, comédia etc.) que podem ser encontradas no relato e vida de anônimos. E olha que com uma boa pesquisa, poderá encontrar uma proveitosa narrativa em cada esquina.

Não sou economista, mas sigo sempre a minha intuição, a do meu Eu Superior, quando digo que a distopia está démodé é porque sei que o planeta já está se transformando energeticamente e em essência, e, o ser humano, cada vez mais, buscará se integrar a natureza e o seu âmago interior.

Sabe aquele projeto descartado por que era completamente fora da curva? Será considerado uma excelente oportunidade. Sabe aquele roteirista que escreve com o coração, exalando sua verdadeira essência, em prazer, inclusive? Terá sua porta aberta. E nenhum homem poderá fechá-la.

Quem sabe o que tínhamos no passado não seja o futuro? E o futuro é aqui e agora. Quer apostar quanto? Eu banco!


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Elizângela Baltazar
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Elizângela Baltazar

Também estou ansiosa para ver o Brasil produzindo séries que aguce a nossa vontade de um capítulo atrás do outro… Séries com belos enredos e fotografia que dá gosto de ver. São sempre os mesmos “protótipos” e quando a gente acha que “agora vem uma para nos representar”… PRONTO. Vem também o desapontamento com as gambiarras.. Cá pra nós: temos inúmeros profissionais no mercado sem oportunidade de mostrar seu trabalho e muita produção mais ou menos feita sempre pelos mesmos … quem sabe seja hora de dar oportunidade para “novos” talentos?

Denise Starling Oliva Imperialos
Visitante
Denise Starling Oliva Imperialos

Espetacular, verdade pura…amei parabéns pela dissertação…

Rogério Viana
Visitante
Rogério Viana

Ana, sua visão tem muito do que penso. Aliás, do que muitos roteiristas pensam. Tenho comentado nas oportunidades que apareceram para dizer que o Brasil é múltiplo e o sotaque carioca não nos representa no que gostaríamos de ouvir e de ver em nossos monitores, ou nas telas de nossos televisores. As narrativas regionais, aquela que sabe cantar o seu quintal, seus vizinhos, sua cultura, seu modo de viver e de sentir, devem ganhar vez e voz. O que acontece no Leblon ou Ipanema, o que acontece na avenida Paulista ou nos Jardins, não nos dizem respeito, nãos nos representam,… Read more »

Ana Dantas
Visitante
Ana Dantas

Rogério, sua fala não é algo isolado. Acredite! O Brasil é extenso, rico em histórias e personagens intrigantes e, com toda certeza, queremos ver nossos espelhos nas telas. Seja elas de que tamanho for. Gratidão pela sua partilha!

DANIEL FUNES
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DANIEL FUNES

O problema é que o mercado audiovisual do Brasil é amador, assim como o editorial. Formado por meia dúzia de roteiristas desatualizados, que são sempre os mesmos. No meio editorial o escritor ainda poderá se tornar seu próprio editor, o que tornará a mídia livro finalmente democrática e bem mais barata. Já no audiovisual vamos seguir vendo remakes insuportáveis ou produções mais rasas que Os Três Patetas.

Ana Dantas
Visitante
Ana Dantas

Daniel, não posso generalizar, e muito menos lhe garantir que o nosso mercado seja “amador”, pois nos últimos anos, ele tem feito grandes avanços, dado o cenário que tínhamos na década de 1970/1980. Seria leviana se assim o fizesse, contudo, há de se valorizar o roteirista, remunerando-os decentemente e dando oportunidades a quem quer aportar nessa estrada para crescer e exercer a profissão com solidez e, enfim, amadurecer através de um contar inspirador.