O primeiro contato que o consumidor tem com qualquer produção cultural — seja livro, filme, teatro etc. — é a experiência com a venda do conteúdo em si. É nessa primeira proximidade que a obra pode se tornar relevante ou não para seu público-alvo em questão. Ainda mais atualmente onde somos bombardeados por inúmeras possibilidades. Uma verdadeira farra de títulos! O assédio para tornar o público-alvo em consumidor é gigante. E, daí, vemos a importância de se pensar em um bom título para uma obra, uma vez que em segundos esse possível leitor/espectador possa ser fisgado ou não pela ideia original da criação artística.

Se, em termos de livros, os títulos e suas capas são fundamentais, no teatro e no cinema os títulos e cartazes tem sua relevância. Estou excluindo propositalmente aqui os quesitos que envolvem a apresentação e venda do produto seja no ponto de venda através das gondolas em que os livros são expostos ou como são evidenciados, seja nos trailers dos filmes ou assessoria de imprensa das peças teatrais. O foco aqui se restringirá aos títulos e as diversas possibilidades de cria-los.

A farra de títulos
Ana Dantas
Um título e infinitos caminhos de criações

E criação de título é um exercício constante e contínuo. Temos que estar atentos e abrir a mente para a pluralidade de perspectivas, pois um título é sempre um prefácio ou prólogo para uma obra escrita. Não importa qual o nível do leitor será encantado pela obra num primeiro momento: um editor de livros, uma produtora cinematográfica, um espectador ou um consumidor de cultura. O importante é instigar este leitor, despertando-o a fim de que ele deseje querer conhecer o seu produto cultural.

Além de ser uma das inúmeras possibilidades de venda da obra, o título é sem sombra de dúvidas uma confissão artística. Nele, podemos dar um tom popular ou elitizá-lo. Podemos criar uma atmosfera do riso, drama ou terror. Duas funções básicas de um bom título para que ele cumpra seu objetivo é descrever rapidamente sobre o que é a obra e chamar a atenção do leitor para descobri-lo. Mas o processo criativo desta concepção não deve apenas se limitar as funcionalidades básicas, afinal, a criação em si é por demais subjetiva.

A farra de títulos
Ana Dantas
Na simplicidade do cotidiano encontramos grandes e generosos títulos

Por vezes, numa conversa informal, alguém fala uma frase dentro de um contexto específico e eu comento: Isso daria um bom título! Não sei se irei usar aquela frase dita, mas sempre as guardo comigo, pois nunca sabemos o dia de amanhã já que no universo tudo se aproveita, nada se desperdiça. Sabemos que às vezes, a ideia original da obra já traz o título envolto em si, em outras ocasiões, o título é criado no final, mas há diversas opções de concebê-lo. O importante é que o autor esteja antenado com as possibilidades de alcance do seu produto.

Quando o autor pensar em um título, ele tem que pensar que o nome, palavra ou frase deve ser memorável, sonoramente agradável e desperte interesse de seu público-alvo. Na literatura, a linguagem poética na sua construção é sempre muito bem-vinda. Para um público popular, o título deve ser elaborado para se ter uma identificação à la blockbuster, ou seja, algo que a grande maioria da população pegue facilmente no ar e grude como chiclete no cérebro.

A farra de títulos
Ana Dantas
Nomes, profissões, mundo dos personagens, tempo e tantas outras invencionices

O autor tem algumas opções para exercitar a criação de títulos. Colocar o nome ou o apelido do protagonista da obra pode ser uma opção fácil, contudo só funciona se este protagonista for um personagem forte e relevante o suficiente que justifique tais escolhas. Usar nomes de personagens, por vezes, também reforça alguma característica ou destino do protagonista, como é o caso de toda a série de “Harry Potter” ou “Agatha Christie”. Na literatura temos exemplos como: “Iracema”; “O menino maluquinho”; “Alice no país das maravilhas”; “Dorian Gray”, entre tantos outros. Já no cinema, podemos encontrar: “Thelma & Louise”, “Rocky”, “Juno”; “Lúcio Flávio – Passageiro da Agonia” e muitos outros. A profissão de personagens também é um bom caminho a seguir, a exemplo de “Doceira e poeta”, “O analista de Bagé” ou “O alquimista” na literatura, e, “O pagador de promessas”, “O exorcista” ou “Caça-Fantasmas” no cinema.

Também podemos levar o leitor ao ambiente e mundo do personagem, como é o caso de “O sítio do Pica-pau amarelo”, “Quarto de despejo: Diário de uma favelada” e “Grande sertão: Veredas” na literatura; ou “Chinatown” e “Fargo” no cinema. Ou ainda, para um período e/ou tempo bem específico como um ano, intervalo do dia, estações, datas comemorativas etc., como é o caso de “Meia-Noite em Paris”, “2001: Uma Odisseia no espaço” e “Antes do Pôr-do-Sol” no cinema, além de “O quinze”, “Rua dos artistas e arredores” e “O país do Carnaval” na literatura.

O título pode traduzir ação e aventura como foi com “A invenção de Hugo Cabret”, “As crônicas de Nárnia” e “Capitães de areia”, livros que foram adaptados para o cinema. Há de se ressaltar que esses livros com títulos de aventura têm bons resultados com aqueles que tenham cenas épicas, a exemplo de “As aventuras de Tom Saywer” (também em literatura e cinema).

Além disso, podemos encontrar títulos elaborados com o tema ou premissa da obra, sem que sejam revelados algo da história. Por vezes, pode-se trazer referências ou associações inusitadas, contradições ou situações inesperadas. Um belo diálogo ou um elemento significativo pode ser presença marcante no título, inclusive, tais expressões fomentam curiosidade e fascínio se utilizados com bom senso e sutileza. Eu, particularmente, adoro tais títulos. Acho-os inventivos, criativos e me deixa ainda mais entusiasmada para ler ou assistir algo, a exemplo de “Que horas ela volta?” (Literatura e cinema), “O cheiro do ralo” (cinema) ou “Cinema, Aspirinas e Urubus” (cinema).

A farra de títulos
Ana Dantas
Blend inusitado para venda

Os títulos podem ser abreviados em uma única palavra, sem deixar de ser grande em sua essência, ou ainda, podem conter jogos de palavras: Paródias, expressões e ditados populares, antítese, paradoxos e oximoros, figuras de linguagem. Todas essas opções citadas são intrigantes e atrativas. Há também de se encontrar as metáforas e analogias delineadas pelo lúdico da narrativa como, quem sabe, um complemento da história ou de uma mensagem que o autor quer transmitir. Tais metáforas e analogias podem estar relacionadas ou não diretamente ao universo do livro, indicando um subtexto e saindo da obviedade, a exemplo do título “E o vento levou…” e “Giroflê, giroflá”.

Já a função do título poético é evocar um sentimento ou emoção ao tema. Geralmente são bem originais e inspiradores, contudo, usualmente não são considerados comerciais, pois podem ser confusos para grande parte das pessoas, sejam elas leitores ou espectadores. Vejo, por exemplo, essa poesia em “Insubmissas lágrimas de mulheres” e “Uma furtiva lágrima” na literatura, bem como em “O fabuloso destino de Amelie Poulain” e “Toda nudez será castigada” no cinema.

Não importa se o autor escolha apenas um dos caminhos citados ou se ele consiga um blend inusitado, contudo, é importante que o título seja o certo para a obra composta. E, a bem da verdade é que o autor sente qual das opções é a mais adequada e acertada para sua criação, pois o título quando se molda em perfeição com a obra, torna-se indissociável dela. Assim, se ao colocar um título no início da criatividade literária, o autor não se sentir à vontade, a dica é continuar criando até que ache a sua inteira verdade.